Desabafo Sérgio Paulo Livovschi

Com os acontecimentos recentes envolvendo o Super 8 – 2009, estou publicando um e-mail do árbitro Sérgio Paulo Livovschi e sua carta de desabafo.

Em primeiro lugar, gostaria de parabenizar o Renato Scalércio (Tyson) por sua conduta, profissionalismo e maturidade que demonstrou na partida entre o São José dos Campos e o Niteroi.

Ao contrário de muitos, apenas seguiu o que determina o regulamento, sem mais nem menos.

Lamento o comportamento demonstrado em relação a ele após sua decisão e com ele me solidarizo.

Aproveito para encaminhar um desabafo.

Se você não concorda com ele, não deveria ser bem vindo a uma partida de rugby.

Cenário:

Última partida da fase classificatória. Somente a vitória interessa. Placar 12×12.   Jogo duro e disputado. Tenso. Distribuídos três cartões amarelos para cada time. Jogo nos 70 minutos.

As equipes se digladiam no jogo de fowards. Caba bola obtida é resultado de uma dura batalha.

Scrum no meio de campo para a equipe adversária. A bola é introduzida e o scrum de sua equipe patina e recua um metro.

Mesmo assim o hooker da sua equipe consegue roubar a bola.

O Scrum Half passa para o abertura na “fogueira”, que dá um “up and under”. Você corre. O full back da equipe adversária apanha a bola logo adiante da linha de vinte e dois metros de sua defesa.

Você o tackleia derrubando-o para trás, já dentro da linha dos 22 metros.

A terceira linha deles chega, junto com seus fowards e está formado o Ruck. Você que estava no chão sai da formação e se posiciona em defesa, atrás da formação.

Seu time consegue roubar a bola. O Scrum-Half tira a bola da formação que passa para o abertura, já dentro dos vinte e dois metros de ataque. Você que estava ali, corre em apoio e recebe a bola por dentro em velocidade, desmarcado, pegando o abertura adversário no contra-pé. Caminho livre para o in goal. Primeiro pega a bola com uma mão, depois com a outra, a bola repica, e … cai!

O Juiz sinaliza e verbaliza vantagem da equipe adversária.

O full back da equipe adversária apanha a bola, passa por você no contrapé e pega sua equipe toda desprevenida que já tinha parado só para observar você apoiar a bola…. Ele corre o campo inteiro e marca o try.

Alguém da sua equipe fala que você é um filho de uma #$%@*? Que vai te encher de porrada ou te matar no final do jogo?.

Alguém da equipe adversária faz isso?

A torcida da sua equipe te ofende, ameaça matar ou te pegar no final do jogo?

E por que é que quando “você acha” que o árbitro erra ou mesmo quando ele erra,  você tem o direito de ameaça-lo ou de xinga-lo?

Por que sua torcida tem esse direito?

O rugby é um esporte de contato e extremamente viril.

Por muitas vezes os jogadores em campo estão no limite da razão.

Ao tolerarmos comportamentos desvirtuados de torcidas, técnicos e jogadores estamos compactuando com esta conduta.

E admitir esta conduta de jogadores e torcida é macular o esporte de forma inadmissível!

No Rugby se passa a bola para trás, se marca o try e se tackleia. Não se contesta a decisão do árbitro e se nutre um profundo respeito por este 31º jogador.

Se passarmos a bola para a frente e não pudermos tocar o adversário, não será Rugby.

Se admitirmos o desrespeito e a total anarquia das regras do jogo, não será Rugby.

Recomendo a todos que leiam a carta do Rugby no seguinte endereço.

http://www.rugbycoachingbrasil.com.br/node/12

Se você, nós, não tentarmos incutir este respeito, esta ética no esporte, corremos o risco de produzir mais uma jabuticaba.

Esta fruta, para quem não sabe, só ocorre no Brasil.

Assim como na política, na justiça, e em tantos outros segmentos temos nossas jabuticabas, não vamos deixar que Rugby também sofra este processo.

Sergio Livovschi

Uma resposta

  1. Cheguei aqui pelo “Rugby de Calcinha”, onde discordei de um ponto somente do texto da Bailarina. Aqui, discordo tb de somente um ponto: Precisamos criar essa jaboticaba. Precisamos ter um rugby brasileiro, de um jeito q só tenha no Brasil. Claro q não queremos q essa peculiaridade venha no desrespeito aos juízes. Óbvio que não. Mas tb não acho benéfico assumir todas as tradições gringas sem nem mastigar… Daqui a pouco estaremos macaqueando um Haka…

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